Oscar 2012: Os Descendentes

Os Descendentes: sem calda ou cereja no topo.

Os Academy Awards, ou apenas Oscar, se aproximam mais uma vez. Neste ano, ainda mais injustos que nas edições anteriores. Muitos filmes e atuações inigualáveis ficaram de fora da 84ª competição do prêmio máximo do cinema mundial deste ano de 2012.

A meu ver, o drama Drive e a adaptação literária Precisamos Falar Sobre Kevin, foram os mais prejudicados, talvez por sua realidade e crueza latentes, ou simplesmente pela falta de padrões muitas vezes exigidos pela academia. Sim, eles existem e não poupam aqueles que não se encaixam.

Deixando de lado essas amargas surpresas nas nomeações, podemos avaliar o drama Os Descendentes (The Descendants, EUA, 2011), que estreia hoje no país, como exímio exemplar daquilo que os votantes da academia mais gostariam ou esperariam ver como grande campeão desse páreo cinematográfico.

Nessa adaptação da obra homônima da americana Kaui Hart Hemmings, o tarimbado diretor Alexander Payne – vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado do ótimo Sydeways: Entre Umas e Outras – retoma a mesma fórmula de seus trabalhos anteriores, sempre despretensioso e despido de floreios.

Indicado a cinco estatuetas – melhor filme, direção, edição, roteiro adaptado e ator – o drama narra a história de Matt King (George Clooney). Advogado, marido, pai, trabalhador, indiferente, covarde. Assim é a personalidade do protagonista que vê sua vida mudar quando a mulher, Elizabeth, sofre um acidente de barco e fica em coma.

Prestes a fechar um contrato bilionário no Havaí, com a venda de propriedades herdadas de sua família quando a terra dos hibiscos ainda era tomada por missionários, Matt precisa agora parar seus negócios a fim de dar vida à profissão de pai da pré-adolescente Scottie (Amara Miller) e da adolescente Alexandra (a ótima Shailene Woodley).

Durante essa difícil tarefa, especialmente na aproximação com a filha mais velha, Matt descobre que sua esposa não era uma dona de casa tão dedicada à família quanto ele pensava. Assim vem a tona que à época do acidente, Elizabeth estava tendo um caso com um corretor imobiliário local.

Ainda que Payne detenha em mãos um enredo honesto e até certo ponto, longe dos clichês atuais do cinema norte-americano, Os Descendentes não vai muito além do que pode, ora pela falta de carisma de Matt, ora pela própria falta de profundidade que os caminhos da história sugerem.

Trilha sonora – em grande parte com instrumentação típica local – e outros detalhes técnicos, além de resoluções incrivelmente previsíveis, tiram bastante do peso que a fita ganhou ao longo de sua exibição no exterior, onde foi exaltada com afinco pelo público e pela crítica especializada.

Vencedor do Globo de Ouro de melhor ator de drama deste ano, George Clooney talvez tenha no papel de Matt o segundo Oscar de sua carreira – ele já possui uma estatueta de melhor ator coadjuvante por Syriana – A Indústria do Petróleo. Entre os concorrentes, ele não parecer ser a melhor opção. Se levar, será como um sundae sem calda e sem a cereja no topo.

Trailer:

Oscar 2012: sorte, azar e palpites.

Para alguns, o mundo é cheio de injustiças, para outros, ele apenas é repleto de sorte. E a sorte é assim, alguns nascem com, outros nascem sem um pingo dessa tão bendita!

O mundo do cinema pode ser considerado assim, injusto para os talentosos e cheio de sorte para os rostos bonitinhos que estão na hora certa, no lugar certo, na presença daquela companhia, representada por aquele manager.

Creio que desde a primeira vez que realmente me interessei e comecei a entender o que se passa nos Academy Awards, ou simplesmente, a festa do Oscar, cheia de moças robustas com vestidos de chita e regada a coxinha e tubaína – ou quase isso – as indicações finalmente me surpreenderam! Tanto para a tal injustiça, quanto para a tal da sorte!

Na festa onde A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, lidera com 11 indicações e o francês O Artista segue com 10, minha maior decepção foi que Ryan Gosling e seu tão criativo, belo e violento Drive foram plenamente ignorados pela academia – não, não aquela onde se puxa ferro.

Outro tapa na cara foi a também falta de qualquer critério com Precisamos Falar Sobre Kevin, que simplesmente foi banido de todas as categorias, mas que facilmente deveria estar indicado em Melhor Roteiro Adaptado – da obra de Lionel Shriver – e Melhor Atriz, para Tilda Swinton, que faz um papel duro, cruel, porém impecável, como de costume, venhamos e convenhamos.

Sim, também faltaram Leonardo DiCaprio em J. Edgar e Michael Fassbender por Shame. Ok, ok, ainda não vi esses filmes e como não gosto muito de ler sinopses e assistir trailers pois acho que eles estragam a expectativa, pouco conheço sobre a história, mas não tem como DiCaprio + Clint Eastwood ou Fassbender + McQueen se saírem com um mínimo de qualidade artística!

Falando em qualidade artística, o que foram essas 6 indicações para Árvore da Vida?! Essa eu fiquei sem entender MESMO! Ok, o filme é bonito, é bem fotografado, tem o galã Brad Pitt… mas peraí… cadê a funcionalidade da história? Enfim, acho que essa entra pra parte da sorte, assim como dessa Rooney Mara na versão americana de Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

Tem coisas que não dá pra entender como eles indicam. Eu acho refilmagem um saco, coisa de gente sem criatividade. Refilmagem recente então é de doer. Se indicaram essa garota que nunca fez nada de relevante, por que não indicaram a Noomi Rapace – a Lisbeth Salander do original sueco – quando o filme foi lançado lá fora?!

Onde foram parar as indicações barbadas de Rio como animação ou A Pele que Habito, do Almodóvar, como Melhor Filme Estrangeiro, ou ainda Phillip Seymour Hoffman como coadjuvante em O Homem que Mudou o Jogo? Quem sabe até poderiam colocar Os Agentes do Destino como Melhores Efeitos?! Ok, talvez nessa última eu tenha forçado a barra, mas é que gosto muito do filme…

Sorte também tiveram Woody Allen e seu Meia-Noite em Paris. Tá, o filme não é ruim, mas eu sinceramente não vejo o que os outros

A Invenção de Hugo Cabret tem 10 indicações ao Oscar 2012vêm nos filmes desse cara! Ninguém percebe que ele sempre pega uma cidade legal, arranja um cinematógrafo competente para deixa-la incrível e joga atores medianos para integrarem um enredo chato?!

Por falar em chato, esse O Artista é algo que me soa sonolento. Francês, preto e branco e mudo?! Tá de sacanagem. Que fique claro, eu adoro filme francês – queria que Tomboy fosse indicado, doce ilusão – mas preto e branco, mudo, ah, sem falar nas quase duas horas de duração… acho que vai ser duro de aguentar.

O que eu até agora não entendi nessas novas regras da Academia é a indicação de dez melhores filmes e apenas cinco melhores diretores! Eu acho que eles precisariam contratar um matemático pra orientar melhor os criadores das categorias. Se existem dez obras incríveis, é porque dez pessoas incríveis as fizeram. Exceção seria se um só cara fosse indicado por dois ou mais filmes, o que não é o caso!

Bom, chega de reclamar e palpitar. Deixo os principais indicados abaixo e assim que conseguir ver todos, ou quase todos que saírem antes da premiação, posto texto aqui sobre meus palpites a vencedores! A lista completa você encontra aqui.

Melhor Filme

Os Descendentes
A Árvore da Vida
Histórias Cruzadas
A Invenção de Cabret
O Homem Que Mudou o Jogo
Cavalo de Guerra
O Artista
Meia-Noite em Paris
Tão Forte e Tão Perto

Melhor Diretor

Woody Allen – Meia-Noite em Paris
Terrence Malick - A Árvore da Vida
Alexander Payne - Os Descendentes
Michel Hazanivicous - O Artista
Martin Scorsese - A Invenção de Cabret

Melhor Ator

George Clooney - Os Descendentes
Brad Pitt - O Homem Que Mudou o Jogo
Jean Dujardin - O Artista
Demián Bichir – A Better Life
Gary Oldman - O Espião que Sabia Demais

Melhor Atriz

Glenn Close – Albert Nobbs
Viola Davis - Histórias Cruzadas
Rooney Mara - Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Meryl Streep - A Dama de Ferro
Michelle Williams - Sete Dias com Marilyn

Melhor Ator coadjuvante

Kenneth Branagh - Sete Dias com Marilyn
Nick Nolte - Guerreiro
Max Von Sidow – Tão Perto e Tão Forte
Jonah Hill - O Homem Que Mudou o Jogo
Christopher Plummer - Toda Forma de Amor

Melhor Atriz coadjuvante

Bérénice Bejo - O Artista
Jessica Chastain - Histórias Cruzadas
Janet McTeer – Albert Nobbs
Melissa McCarthy - Missão Madrinha de Casamento
Octavia Spencer - Histórias Cruzadas

Melhor Filme Estrangeiro

A Separação (Irã)
Bullhead (Bélgica)
Monsieur Lazhar (Canadá)
Footnote (Israel)
In Darkness (Polônia)

Melhor Animação

Gato de Botas
Kung Fu Panda 2
Rango
Um Gato em Paris
Chico & Rita

Melhor Fotografia

Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
O Artista
A Invenção de Hugo Cabret
A Árvore da Vida
Cavalo de Guerra

A Separação: universalidade é a chave.

Os modismos ou maneirismos são elementos profundamente acoplados à arte cinematográfica. Há cerca de quinze ou vinte anos, os filmes provindos do Irã, país do Oriente Médio com largo e complicado histórico sócio-político, tornaram-se a menina dos olhos daqueles que admiram o cinema como arte e não apenas como forma de gerar lucro.

Obras que aqui no ocidente antes eram encaradas com desconfiança e curiosidade, agora se tornam cada vez mais comuns, apresentadas em importantes festivais, esperadas com ansiedade pela crítica especializada, certo interesse de um público ainda restrito, porém cada vez maior, e alternativa comercial de grandes distribuidoras.

Apesar do radicalismo religioso e forte repressão do governo do Irã sobre as fitas rodadas no país, este ano essa linha que separa política e religião da arte criada parece ter se quebrado, devido ao grande favoritismo de A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, IRÃ, 2011), filme que estreia nessa sexta-feira no país, perante a corrida pelo Oscar 2012.

Ganhadora do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro na semana passada, a fita narra a história de Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami), um casal de classe média do Irã, à beira de um divórcio. Seguidor dos costumes locais, Nader se recusa a ceder à sua esposa a guarda de Termeh (Sarina Farhadi), filha do casal, para que ambas possam tentar uma vida melhor no exterior.

Nader, em contra partida, diz que não pode abandonar o país, pois teria que deixar para trás o pai, um ancião portador de mal de Alzheimer. O bancário então contrata Razieh (Sareh Bayat), uma empregada que cuidará de seu pai, enquanto ele segue sua rotina de bancário.

Certo dia Nader chega em casa fora de horário e encontra o pai sozinho, caído no chão e amarrado à cama. Quando retorna ao trabalho, Razieh entra em discussão com o patrão que acaba empurrando-a escada abaixo, ocasionando a perda de seu bebê.

Para complicar ainda mais a situação, entra em cena Hodjat (Shahab Hosseini), marido de Razieh, que nem mesmo sabia da atual profissão da moça. Destemperado, desempregado e sem nada a perder, o ex-vendedor de calçados quer processar Nader por assassinato.

Uma bola de neve sem precedentes se instaura e A Separação foca mais uma vez no sistema judiciário iraniano, suas peculiaridades e autoritarismo, onde o poder de decisão dos personagens é a cada passo podado por um Estado machista e teocrático que jamais chega a um consenso.

Em ritmo de pesadelo, a fita de cravadas duas horas, poderia ser um marasmo sem tamanho, mas a mão firme de Asghar Farhari, que roteiriza e dirige, juntamente com a caprichada edição de Hayedeh Safiyari trazem à tona, em doses comedidas, fatos e verdades de pontos de vista completamente distintos sobre atitudes que colocarão em voga as relações humanas de seus personagens, dimensionando a uma escala universal um realismo aparentemente distante de nós ocidentais.

Trailer:

O Espião Que Sabia Demais: quem não se comunica…

Geralmente nos referimos a uma Torre de Babel como algo incômodo. Um lugar onde milhares de pessoas não falam a mesma língua, portanto, não conseguem se comunicar com precisa perfeição.

O que de fato as pessoas não sabem, ou talvez apenas não entendam, é que a tal torre que, reza a história, foi construída na antiga Mesopotâmia, atual Iraque, pode ter um significado moderno positivo, afinal de contas, o homem é mais do que adaptável, e não são palavras que os distanciarão.

O caso aqui é que temos uma obra literária britânica sobre o período de Guerra Fria, adaptada para o cinema por um cineasta sueco, com um elenco recheado de atores das mais diversas nacionalidades, resultando em O Espião Que Sabia Demais (Tinker, Tailor, Soldier, Spy, ING/FRA/ALE, 2011), suspense que estreia nessa sexta-feira no país.

O primeiro trabalho em inglês do diretor sueco Tomas Alfredson, do excelente suspense vampírico Deixa Ela Entrar, é prolongado, difícil, nada funcional, mas ainda assim extremamente interessante.

Nessa adaptação do livro homônimo de John le Carré – também autor de O Jardineiro Fiel, dirigido por Fernando Meirelles –  seguimos os passos de George Smiley (o enigmático Gary Oldman, da mais recente trilogia Batman), um agente da inteligência britânica que é demitido do seu cargo no início dos anos 70, auge da Guerra Fria, quando uma missão na Hungria sai completamente equivocada.

Calejado pelos anos servindo o governo britânico, ele parece estar feliz com a aposentadoria logo antecipada. Não tarda e Smiley é chamado novamente para seu antigo cargo, com o propósito de encontrar um suposto espião russo entre os quatro ocupantes dos postos mais altos da Circus, como é chamado ficcionalmente o serviço britânico MI6, interpretados por Colin Firth, Toby Jones, Ciarán Hinds e David Dencik.

Incontáveis personagens adentram a trama – como os agentes interpretados por Mark Strong, Tom Hardy e Benedict Cumberbatch –, protagonizando idas, vindas e reviravoltas, locações na Rússia, França, Inglaterra e Hungria, todas enquadradas por um tom sépia lavado e inebriante, papéis de parede amarronzados, carros polidos, figurino alinhado e trilha sonora de fazer suar até os mais calmos – aliás, muito semelhante à de Deixa Ela Entrar – resultando uma experiência visual e recriação de época magníficas para uma história não lá muito funcional.

Jogando do lado oposto de James Bond ou Jason Bourne, as incursões de Smiley são desprovidas de carros velozes, fugas audazes, câmeras na mão e lutas coreografadas. Isso porque à época, não apenas a guerra era fria. Seus agentes também eram controlados, até mesmo perante uma traição, sendo de um colega de trabalho ou da mulher com quem dividia a cama. Smiley em especial, passando sempre despercebido pelas ruas, não intencionalmente escondido por trás de grandes armações de óculos, cabelos imóveis e voz baixa.

Datado – claro, não teria como ser diferente – O Espião Que Sabia Demais retroage e parece esnobar a maneira como o cinema de espionagem moderno é feito. Seus personagens são apagados demais e detêm personalidades tão intrínsecas, que o espectador nem mesmo consegue sentir compaixão ou carisma por qualquer um deles.

Não à toa, a atitude se voltou contra a fita, que passou despercebida no Globo de Ouro, e esta fadada ao mesmo destino no Oscar. Quiçá conseguirá alguma migalha no Bafta. Fica clara então a lição de que, mesmo numa torre onde não se fala a mesma língua, a comunicação jamais deve ser cortada.

Trailer:

Em Cartaz: Tudo Pelo Poder

Tudo Pelo Poder: nacionalismo constante e real.

Muitos reclamam que os norte-americanos são nacionalistas demais. A grande verdade é que para alguns fins, não há o demais e o de menos, você simplesmente acredita ou não naquilo pelo que luta.

Os americanos se munem sim de bandeiras, morais e discursos para promoverem seu país, sua cultura, sua nacionalidade e soberania. Vale lembrar que isso não acontece apenas em ano de Copa do Mundo, como em alguns países que vemos por ai ou por aqui. Isso é constante, é real.

O cinema hollywoodiano, se não é o maior, é um dos maiores produtos de exportação que os Estados Unidos possuem. Por isso o fazem tão bem pensado, explorado e divulgado. Exemplo não raro, porém consistente, de grande difusor do american way of life como produto é o ator e diretor George Clooney.

Em sua quarta incursão por trás das câmeras, ele lança agora Tudo Pelo Poder (Ides of March, EUA, 2011), filme em cartaz no país, baseado na peça teatral Farragut North, e indicado a quatro prêmios Globo de Ouro, uma espécie de prévia dos Academy Awards.

Saudosista em trabalhos anteriores, como Boa Noite e Boa Sorte, onde abordava a era de ouro das rádios americanas, ou em O Amor Não Tem Regras, que acompanhava os primórdios do futebol americano, Clooney, por descuido ou não, optou por abordar um tema atual na política americana: os bastidores da escolha de um candidato às eleições presidenciais.

O partido democrata americano tem como uma de suas opções nessa corrida o crédulo Governador Mike Morris (Clooney), que para manter a aparência de intocável, depende do incessante trabalho do jovem diretor de comunicação Stephen Myers (o excelente Ryan Gosling, de Amor a Toda Prova).

Embora haja um ditado dizendo que por trás de todo grande homem, há uma grande mulher, Tudo Pelo Poder apenas sacramenta a ideia de que na política por trás de um grande homem, há outro ainda maior, escondendo falcatruas, escolhendo vestimentas de corte perfeito, ajeitando o palanque e escrevendo o que o povo deseja ouvir.

Excelente no que faz, Myers acaba chamando atenção de Tom Duffy (Paul Giamatti, de Ganhar ou Ganhar), assessor do concorrente direto de Morris. Assediado a mudar de emprego, sua indecisão custa seu emprego e ele é demitido por Paul Zara (sempre hipnotizante Phillip Seymour Hoffman), assessor de Morris, com direito a sermão sobre lealdade, mentiras e omissões.

Descartado por ambos os lados, Myers não consegue se imaginar longe da política, por mais que isso fosse um bem para sua ética pessoal. Visivelmente influenciado pela história do ex-presidente Bill Clinton, Clooney joga na trama um caso de Morris com uma estagiária (a bela Evan Rachel Wood). Myers assim explica sublimemente. “Para ser presidente, você pode começar uma guerra, mentir, trapacear, falir um país, mas nunca, jamais, sair com a estagiária”, fato que cai como a salvação da lavoura do diretor de comunicação, prestes a ser devorado vivo pelos políticos corruptos – aqui sem pleonasmos.

Quadrado em alguns aspectos, como na trilha sonora de Alexandre Desplat, e sem grandes inovações quanto a um filme que retrata a política norte-americana – Frost/Nixon, por exemplo, é mais ambicioso – Tudo Pelo Poder dá à direção de George Clooney a interpretação de Ryan Gosling como o maior trunfo para mostrar o cada vez mais tênue limite do ‘Yes, we can’.

Trailer:

Estreia da Semana: A Fera

A Fera: vende-se lifestyle

Há quem julgue a velhice a fase mais implacável da vida de um ser humano, mas se existe um período de nossa existência que concorre de igual para igual com a maturidade, sem dúvida alguma a adolescência seria uma escolha inteligente.

Tanto para os garotos, quanto para as garotas, a puberdade não é apenas um período de transição e transformação. É também uma fase em que criamos identidade, opinião, e para certos grupos, responsabilidade.

Parte integrante de um público desenfreadamente consumidor, os adolescentes não vivem somente de roupas caras, baladas vips e viagens para destinos incríveis. O cinema vê nesse público um alvo simples de entreter – afinal a opinião não é plenamente formada – e com dinheiro suficiente para bancar um dos entretenimentos mais baratos disponíveis.

Nos últimos anos, pudemos ver um pouco do poder de fogo da indústria cinematográfica para os tweens e os teens – traduzindo, os pré-adolescentes e os adolescentes a exemplo de fitas como High School Musical, As Sagas Crepúsculo, Harry Potter e cia, Eu Sou o Número Quatro, A Mentira, entre tantos outros, que vão incrivelmente bem nas bilheterias mundo a fora e vendem tanto produtos quanto um estilo de vida. Caminhando de maneira semelhante, mas com ressalvas, temos agora A Fera (Beastly, EUA, 2011), longa-metragem já em cartaz no país.

A fita, baseada no romance homônimo de Alex Flinn, conta a história de Kyle Kingsbury (Alex Pettyfer, de Eu Sou o Número Quatro), um adolescente que aparentemente tem tudo. Rico, bonito, inteligente, popular e mulherengo, ele abusa de sua posição privilegiada para encarnar cada vez mais uma personalidade adolescente: insuportável, cretino e cruel.

Depois de ganhar as eleições para líder do colégio onde estuda, ele bate de frente com Kendra Hilferty (Mary-Kate Olsen, umas das gêmeas sumidas do cinema), uma adolescente feiticeira que lança uma maldição sobre o garoto, transformando-o no que ele mais despreza: uma pessoa fisicamente horrível.

Para sua vida voltar ao normal, agora ele terá que encontrar alguém que o ame de coração aberto, esquecendo sua aparência externa e conhecendo seu interior. A missão caberá a Lindy Taylor (Vanessa Hudgens, cria do canal Disney), uma espécie de hippie moderna, que vive às voltas com o pai drogado.

Aliás, modernidade é o que falta em A Fera, uma espécie de conto de fadas do século XXI, que descarta da era medieval e monarca apenas a linguagem, e isso é ótimo, embora crie na percepção feminina a vontade de ser princesa – ali estão as leituras de poesia, o beijo ao pôr-do-sol e uma estufa repleta de rosas –, mas distancia a postura de príncipe aos garotos, que provavelmente não farão parte do público que a fita atingirá.

Protagonizada por dois atores que, por enquanto, apenas aprenderam a engatinhar, A Fera talvez pudesse ganhar força e credibilidade se amparasse Hudgens e Pettyfer num elenco coadjuvante mais vistoso e experiente.

Sem atrativos ou afetações até mesmo no figurino e trilha sonora – que geralmente nessa espécie de fita têm grande significância – o segundo trabalho de Daniel Barnz, que vem de A Menina no País das Maravilhas, uma fita mais introspectiva e difícil, que aborda vida de uma criança com TOC e Esquizofrenia, não é uma grande perda, mas também fica longe de ser um incrível acerto.

Trailer:

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